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Línguas futuras (3)

Se há algo no quimbundo que nos chama mais a atenção, ele se manifesta numa harmonização que se assenta naquilo que ousamos denominar como sendo a CONSONANTIZAÇÃO.

Se há algo no quimbundo que nos chama mais a atenção, ele se manifesta numa harmonização que se assenta naquilo que ousamos denominar como sendo a CONSONANTIZAÇÃO. Porquê? Trata-se fenómeno só existente em línguas africanas, e que lhe dá uma beleza não só original, mas também abrangente. Para não divagar exageradamente, vamos nos debruçar com alguns exemplos que nos ajudarão, estamos certos, compreender o fenómeno em causa. Todos nós temos um certo domínio dos vínculos de posse: meu livro (divulu(1) yami), minha mão (lukwaku yami), minha mandioca (kidigu yami), meus olhos (mesu yami), meu fogo (tubya yami) meus parentes (ji ndandu yami). Se verificarmos atentamente a posse (yami) não sofre o fenómeno consonantizante; porque com ele aplicado, e é aí onde denotamos a sua beleza, escrever-se-ia assim (visão extensiva): divulu dyami, lukwaku lwami, kidigu kyami, mesu mami, tubya twami, ji ndandu jami. Não é bonito? Eu acho profundamente fenomenal! Como poderemos então definir a consonantização? Definiremos como sendo aquele fenómeno das línguas africanas que procura harmonizar (para não dizer embelezar) certa sequência de palavras, conferindo uma uniformidade fonética, evidenciada nas primeiras sílabas. Este fenómeno superabunda de tal forma nas nossas línguas que às vezes, quando procuramos, de ânimo leve, falá-las, não compreendemos os quês e nem os porquês das mesmas. Vejamos então um outro exemplo do fenómeno (visão intensiva): meu livro (divulu dyami), teu livro (divulu dyeye), livro dele (divulu dyee), livro dela (divulu dyehe), nosso livro (divulu dyetu), vosso livro (divulu dyenu), livro deles (divulu dyaa), livro delas (divulu dyaha); minha mão (lukwaku lwami), tua mão (lukweku lweye), mão dele (lukwaku lwee) mão dela (lukwaku lwehe), nossa mão (lukwaku lwetu) vossa mão (lukwaku lwenu), mão deles (lukwaku lwaa), mão delas (lukwalu lwaha); quanto aos termos ‘kidigu’, ‘mesu’, ‘tubya’ e ‘ ji ndandu’ facilmente poderemos deduzir os termos de posse seguintes: kyami, kyeye, kyee, kyehe, kyetu, kyenu, kyaa, kyaha; mami, meye, mee, mehe, metu, menu, maa, maha; twami, tweye, twee, twehe, twetu, twenu,twaa, twaa; jami, jeye, jee, jehe, jetu, jenu, jaa, jaha. A escolha destes termos não foi por acaso; notem que só são consonantizáveis as letras J, K, L, M e T; existem outros tipos de consonantização, que contemplam as letras B, W e Y, numa complexidade que, com muito cuidado procuraremos explicar em outros capítulos; no entanto chamaria já atenção aos mais atentos quanto curiosos, que paulatinamente, iremos sendo formados para verdadeiros arautos da língua kindo. Como terão notado já, nos exemplos apresentados, houve a preocupação de não nos esquecermos da feminilidade, onde a letra H, que se pronuncia no quimbundo de forma aspirada, foi inclusa, para representar a mulher (MUHATU). Sem ser uma tarefa fácil, tal adoção nos tem sustentado para conseguirmos traduzir com certa propriedade os livros da Bíblia, pelo que no momento oportuno, digamos, em palestras futuras programadas para a sua devida fundamentação e defesa, nos iremos pronunciar. Para quem esteja (mesmo) interessado, poderemos enviar pelo menos um livro grátis, dos livros já terminados, a saber: Génesis, Mateus, Marcos, Lucas, João, Atos e Romanos, por email, (só um para não ter problemas com a Sociedade Bíblica), desde que digam quais os vossos emeis à direção deste jornal. Nas próximas publicações, iremos dar um cheirinho daquele acervo que conseguimos pesquisar sobre termos que nas três línguas, isto é, quicongo, quimbundo e umbundo, se identificam com igual identidade, tornando-se por conseguinte, mesmo que ainda em pequena escala, naquilo que poderíamos chamar ‘o acervo básico da língua kindu’. Termino augurando que esta pequena exposição tenha tocado um pouco dentro de nós, para que, aquela falta de interesse por línguas africanas apenas diminua, já que, paulatinamente iremos apresentando dados de interesse que dignifique a vida, os povos, a África, o mundo …
(1) Pronuncie-se dívulu.