Grafitos na alma

Epístola à minha pulcra amiga Hosana

“Amiga, só amiga”, diz-me ela. Sussurro que lhe sai numa voz branda e temerata. E continua «foi Deus que conspirou contra a tua pretensa decisão de me quereres.

“Amiga, só amiga”, diz-me ela. Sussurro que lhe sai numa voz branda e temerata. E continua «foi Deus que conspirou contra a tua pretensa decisão de me quereres. Eu, coitada de mim, apenas anui nesse sentido». De cabeça baixa, rente à gola de vestido de cor púrpura e quiçá de seta já no imo, dissimula «sou enredada e não te posso esperançar». Esboça um gesto, tocando ligeiramente o fetiche de metal que tem no dedo, com a denguice duma freira, para meigamente me arrasar «aparta-te de mim, oh meu zeloso saduceu!». Encena isso num acesso fulminante de improviso e num excesso de pudor involuntário, tal que me fazendo passar um rasto de cilício pela fronte, deixando-me a vaga sensação de doloroso sangue fresco a penetrar-me as ventas do nariz. Apesar disso, é uma vara que diante de mim brande, virente e cheia de fibra. Está confusa e não esconde a nuance de esbelta juvenil hesitação. Diz a frase num misto de honradez e de embaraço, algo da zona de conforto, puxando mais pela vigência de uma precoce palavra dada do que pelo vibrar do seu sincero chão cardíaco. E como quem se vê a meio de uma escalada e enrolado numa teia de difícil desprendimento suspira, em tom de púdica perfídia, para se gabar de uma suposta regalada situação, que ela sabe não ser pitada daquilo que lhe vai na raiz de alma noviça e recarrega «sou a boca e livre voz da minha excelsa condição».
Então, coloco a presa sob a mira de cabrestante olhar de lince e disparo certeiramente «Hosana, a tua aposta no disfarce não adianta, o teu fingido pulular de impala aflita não encontra provimento. Oh meu cisne alado, quanta ansia de volúpia não escondes tu debaixo desta pluma de parecente Pompeia a ermo? Não te ponhas na alheta daquilo que te pode mudar a vida, oh meu cálido raiar de nova aurora! Sabes muito bem que a praia do teu sonho não é esta. És um vivo e ledo favo de aventura, essência adocicada numa pétala de malva. Uma brecha no pano de horizonte e um risco ali vincado no livro de destino. Uma bala de aguçada sensualidade na lapela deste sol primaveril». Ela estremece e quase cai. Fica flácida de viço e de falácia na mão. De seguida, fita-me no rosto, de modo afeito e atarantado. Abre-se toda a dar-me afago, como uma gralha de pele em franja, avulsa e solta por debaixo das asas, na posição de displicente guarda de honra. Mas, depois, intuitivamente se arrepende, dá um salto arrebatado e cai em si. Retoma a calma e sensatez, e num ralhar efeminado me conjura «não! É melhor não. Afasta-te, daninho!». Depois, rogando-me recato e abstinência, com relação à tentadora pretensão, lança-me veemente e dolorida intimação «Donato, deixa de me comer com gulodice da tua poesia!».
E eu, que sou tinhoso e destemido lenhador, para levar seleta brasa de aconchego à tua lareira; para mim, que sou afoito cobiçoso das proezas do universo, como o esplendor de belo sol no firmamento, o contorno de bonita lua cheia, a mão da Dictina no jardim, a pose de patrícia no remanso, o redondo olhar de pomba, a curva de laranja, o acre de maçã, o ovo de Colombo sobre a mesa, a linha das estrelas e o tenro filamento das luzes sobre o cosmo, podia ser enorme furacão levar com isto, mas tenho uma outra indiciação do vaticínio, porque acredito no devir e na clareira de uma nítida manhã. Não há noite tenebrosa que não seja para impor o seu dilema e que não possa ser diadema a vir a eito até colina. Enxergo o disputado paraíso e diviso que não fica para lá da minha prece e minha vista. E ademais, sinto a suster-me no fundo de imo uma enzima de auriluzente promissão, com todo o seu ardor e acutilância, florescendo-me a vontade, adentro do meu peito. Por isso, estou ansioso de arrolar o céu inteiro, com toda a sua corte e nédio cetro, para junto dos meus próprios aposentos. E apraz-me dar um brado: ó minha invicta galula, esta réstia de esperança existe sempre, embora ténue.
E mesmo não havendo, nada me impediria de encetar uma ingente diligência e pôr-me em campo, para entoar, a partir deste patíbulo de névoa, um vigoroso e soante hino, laudativo a quem quisesse, mormente a uma soberba pulcritude e requintada gentilidade, impoluta e digna de vénia, até nos círculos de Olimpo. Uma espantosa formosura, que domina, comove e paralisa. Uma realeza que não precisa de lei e de soldados para se impor, porque a presença contagia e tonifica, inspira uma genuína autoridade e respira a mais deifica impressão de lividez e de harmonia. Por isso, a sua fogosa aureola mística ressumbra-me na cara, porque mete qualquer mancebo em chamas, na carne e na alma. Como acentuava o aclamado ente da prosa e da poesia, João Varela, o sage Vário, «A beleza é única verdade revelada». Então, que seja a reza imaculada a saudá-la e a dar-lhe graças e louvores, no alto do seu divino pedestal.
A tua enleva curvatura é a cinta de prodígio no eixo de uma lua. A redondez de miolo ao centro, a voz de edulcorante ave canora, a fulgurância de anjo ao alto, como evo arrebanhado no açude de telhado. A imponência espirituosa vem de cima, vertiginosa, não obstante ser humilde. A elegância a refulgir de toda a parte mais remota e com o imã de varanda a ser o pico-gravidade. O mágico rasgar do teu olhar esmaga-me, de ardência, de relance e de regalo. O eco de tua voz amansa-me o costume, percute-me o ínclito desejo, de gozo, de verdor e de frescura. Acossa-me o lirismo de mais íntimo. Oh! Como me fere imaginário o par de túmidos mamilos! É uma chispa de deleite que amiudado me fustiga, o tempo todo, e mole me matando; carcome e progressivamente me consome. Mas como cantava o vate, Mário Fonseca,«é uma morte que quanto mais me mata, mais quero morrer». Uma estrela com a luz de cintilante profusão, nos poiares do Além-miragem, trinchando para o orbe o mais potente e mais dileto refinamento.
Fico pálido e perdido, caído no redor dos tornozelos de uma ninfa, de braços erguidos, implorando o seu altar, singelo e soberano; fico pronto e derretido, para lhe pôr o tal tapete de oração, o conclamado e benquerente. A comissura dos teus beiços é uma dupla de rebuscada fatia de ambrósia, no rebordo de uma íngreme montanha, mas difunde desde lá seu talismã, seu aroma inebriante e irresistível, estonteante e peculiar, com sua aura magnífica de paz e de concórdia, à imagem do incenso a pôr no adorno de deidade, no dia do seu airoso entronamento. O teu semblante inspirador e carregado de feitiço, o brilho alucinante dos teus olhos e o magnetismo do teu sorrir deixam-me colado na imberbe pista de emoção e na pureza de primevos argumentos. Nada em ti excede ou fica aquém. Nada em ti chateia ou aborrece. Nada em ti perturba ou desanima. Tudo em ti na justa proporção das aplaudidas harmonias. De compleição serena e proba à rica e mui nitente inteligência. A aura da tua presença amacia e purifica tudo quanto em volta gira. E tudo cobre com o manto de discreto céu perene. Emite-me o bilhete de turismo para a âncora dos deuses.
A tua silhueta purpurina segue a linha dedilhada de maestro, no âmago de trono, em torno da oficina de arquiteto. Eu gosto de me ver, parado e relaxado, a olhar para ti, oh mel das minhas lentes!O recorte emoldurado do teu corpo é um tesouro que só vi no Éden renascido. Oh efígie de uma diva aqui na pose de crioula! Nem nereide nem sereia te faz sombra. Imagino-me a curvar, a pegar na tua singela mão de huri, a beijá-la exato orvalho matutino passando pela cútis de uma planta, com pele em arrepio e subtil feição de modos, tal que leve perpassar de uma neblina pela eira de uma seara amolecida. Eis então que chega a estrosa cotovia, com o cesto de veludo e seu oirado anel de pompa adentro dele. Haverá leito de plumas, Oh Sana nas alturas de dilúvio?!