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Quando o “des” anula as impossibilidades: Octaviano Correia e A avó que nasceu duas vezes – estórias do desimpossível

Há prefixos assim. Os que negam o sentido original de uma palavra, do seu significado, criando um sentido novinho, que, por sua vez, pode ser negado.

Há prefixos assim. Os que negam o sentido original de uma palavra, do seu significado, criando um sentido novinho, que, por sua vez, pode ser negado por um outro prefixo de negação, semeando novo sentido, como enxerto em árvore de fruto.
O “des”, o “im”, o “in”, o “dis” estão todos ali à mão de semear para dar rumo inaudito às palavras, porque só com outra direcção, trilhando vias desconhecidas, a linguagem explica as vidas desvidas, os sentimentos dessentimentos, os possíveis impossíveis, os acordos discordados, os corações descorações, incorações. E, se formos mais audazes, podemos negar a negação, numa dupla negação que elimina para introduzir um novo sinal. Como na lógica proposicional, em que as regras de inferência como a eliminação da dupla negação e introdução da dupla negação permitem eliminar e introduzir um par de sinais de negação.
Sempre que mete lógica fico meio perdida, mas vejamos: se o escritor tivesse escolhido para o seu título “estórias do impossível”, o leitor iria exigir uma prova para a suposição de que existe possibilidade de o impossível acontecer; se as histórias são do desimpossível, a dupla negação requer apenas que a suposição de que a possibilidade é possível não seja contraditória. Quais as possibilidades de uma avó viver duas vezes? A suposição de que a impossibilidade se pode resolver em possibilidade.
O mesmo na vida, que se pode experimentar como desvivente, título de um dos contos deste último livro de Octaviano Correia, escrito em 2012 e a publicar brevemente em Angola, ou como, seguindo as desimpossibilidades, como desmorto.
A verdade é que o escritor, através de um cuidado de linguagem que a liberta nas suas incríveis e múltiplas possibilidades, numa espécie de big bang linguístico de formação de novos cosmos, retrata a vida do homem tal qual como des-é para chegar ao que é. Como se prefixos e sufixos, composições inusitadas e derivações originais fossem o código que nos permite ver o que não se vê, deslogicando a lógica através da intuição para chegar aos corações dos homens. Coração, íntimo e razão tantas vezes escondidos nas aparências que só os olhos do escritor, da criança, do poeta conseguem entrever nas desentrelinhas das histórias, dos rostos e dos pensamentos.
Viver duas vezes é, neste livro de contos, o olhar segundo, o olhar que vai para lá das roupas da Dona Rebbeca, protagonista de um dos contos, respeitável e vistosa senhora de sessenta anos, para lá do seu corpo inventado para ter menos vinte anos, do nome de consoante dupla pensado para ser aristocrático-chique. A desimpossibilidade leva o menino Bernardo a fazer ver à tia Henriqueta os pés de galinha, os sinais inequívocos da idade galopante. E decifra-se a batota nas cartas de um dos amigos de bisca de há dez anos, numa dezamizade em que o dez da década era afinal o “des” da negação.
As personagens de Octaviano Correia são tão vivas que pertencem à aldeia, cidade, família de cada um dos leitores. Com outros nomes e outras faces. No conto “O Talvezmente”, o escritor oferece-nos o louco oficial da cidade, porque cidade sem louco é deixada à insanidade, como escreve. E eu viajei no tempo, para lá longe, quando, pequenina, passava à porta da Eufémia, a tolinha oficial da aldeia da minha avó. Passava sempre com medo, porque ela aparecia de dentro da casa escura, como se saísse de uma caverna, e atirava pedras e gritava e falava com um dente a sair-lhe da boca. Quando a Eufémia morreu, ficaram os outros, como no conto de Octaviano Correia, sem ter a quem chamar louca e começaram a vir ao de cima as loucuras dos sãos. Porque tinha partido a desinsana.
Esperemos que o livro de Angola chegue cá muito depressa, para encher com o seu carinho pelos homens e as suas desimpossibilidades os nossos dias mais desdias, para que inventemos talvezmente e alimentemos de sonhos o nosso “imaginar desexplicado e indizível”, como escreve o autor num dos seus contos.

Luisa Marinho Antunes Paolinelli é Profª. de Literatura Comparada da Universidade da Madeira