Barra do Kwanza

A ofensa que transmudou o Dituta conto de Octaviano Correia

A maior ofensa que podemos fazer aos homens é ir de encontro aos seus costumes Barão de Montesquieu.

A maior ofensa que podemos fazer aos homens é ir de encontro aos seus costumes Barão de Montesquieu Lhe chamaram de Dituta por lhe terem dado nascimento num dia em que as nuvens de chuva se desceram de um tão rasteiras que esconderam até os ramos de quase tocar no chão dos mutiatis e assim se ficaram meaçando de um nunca mais chover durante dias. Mas Dituta ainda foi só até ao tempo de na escola chegar nos exames da quarta com o mulato professor Macundinho como lhe chamavam de escondidos por causa do seu destamanho e pelo sinal preto na cara como se era um feijão macunde. Dituta se virou Kabangula quando começou ter de se defender dos miúdos outros mais velhos da escola com reviangas e golpes ainda pareciam de capoeirangola lhes mandando chapada e pontapés nos bem mais altos e fortes que ficavam desconhecer de onde que estava a vir o vento dos golpes. Mas no dentro do Ditutakabangula tinha mais outras destrezas nas existências do corpo e no liceu lhe passaram de nomear Bungula por mais ninguém dançar igual que a dança dele igual com uma tremideira de nádegas que parecia matete aguado em colher nas mãos de velho e ainda foi esse mesmo bungular que marcou a hora que a vida de Dituta se transvirou num para sempre irreparável.
A noite estava quente na rebita demirando Dituta bungulando bem no central da pista quando lhe gritaram lá do meio do anónimo das pessoas “Dituta é maricas”. Dituta se direcionou para as palavras em preocupação de identificar o sem nome que lhe destratara com a ofensa exigindo que se desacobardasse o falante com um grito tão gritado que a rebita se desmusicou e dançantes se estatuaram no espanto da exclamação “o dixito que me destratou ainda na minha força de homem que se desacobarde e se mostre” e o silêncio se pesou ainda mais quando os olhos dos ali se tresviraram num todo para um só mesmo lado e nos anos passados e até hoje ninguém que perdeu lembrança da sombra do Dituta voando pelo rasante das cabeças sem tocar em nenhuma até explodir no peito do denunciado pelos olhos de acusação. Uma golfada pesada de sangue se desinteriorizou das veias rasgadas ensangueirando o chão da sala e as roupas daqueles mais chegados. Naquele relâmpago de raiva Dituta tinha virado de novo Kabangula aplicando no destratante um golpe último de vida. Me disseram depois e esse dito é voz de certeza no todo da cidade que o Dituta feito sombra voadora leve como o vento desapareceu voando pela janela da sala do baile e nunca mais que foi encontrado nem vislumbrado nem de puro acaso.
“Virou cachimbamba só de viver de noite” se garantiam alguns na certeza e outras muitas pessoas falavam num baixinho de susto com o medo dentro da cabeça delas de um cruzar no caminho do Dituta “se virou bicho quinzar” e se perdeu para um nunca mais nos escuros das matas”.

(In: A Avó que nasceu duas vezes – Contos do Desimpossível)