Arte Poética

Angola além-mar

De amada mente emana dor E embalo os abalos d’alma.


(I)
De amada mente emana dor
E embalo os abalos d’alma
Em mil e mais malas de mão
Uma a uma as levo ao colo
Tirando a mando d’alma vil
Vil suor do meu labor! Senil
Me vejo, me antevejo tolo
A palma da mão no coração
Sentindo falecer essa calma
D’amor do qual sou dador!

(II)
Emalo a dor ao som do amor
Aquietando o meu desamor
E por tão dócil, o meu canto
De mim esvai o desencanto
Que ousara rir do meu clamor
Evolando ventos sem primor
De aventar ira em vil tremor!

(III)
Assomo os arrumos da razão
E tão vil, o caos me ordena
Que me encene em vera lida
Capaz de erguer meu sofrer
Combalido, falido, a morrer
Esvaindo a alma Além, falida
Em cuja aura ainda encena
Miras dardejando o coração!

(IV)
Amelo o mar ao som d’amor
Quanta amargura sem sabor
Que de alívio a alma se vai
Indo além-mar sondar quem
Levado pra não mais voltar
Canta samba sem revoltar
Escavando a custo vintém
Que chega e logo se esvai
Apesar do mais duro labor!
Eis porque além há desamor!

(V)
Ouço o canto conga sonar
Mui além do meu doce mar
E o som que liberta alerta
Quanta dor inda preenche
O vazio prenhe que amola
O bater do tambor d’Angola!
E se o pranto ainda enche
A alma em noite desperta
É para ainda ver reclamar
A dor do peito a entornar!