Grafitos na alma

Pobreza de espírito ou preguiça mental?

Ora o produto que resulta deste acto confere prestígio ao autor que, guiado pelo espírito criativo, inventivo, e imaginativo, e consciente das suas responsabilidades, o faz, em nossa opinião, com o propósito de contribuir para o desenvolvimento científico e cultural da sociedade na qual está inserido.

Introdução
Escrever um livro é um acto que decorre do exercício da liberdade de pensamento, de expressão e de consciência do sujeito que, ao partilhar as suas ideias, intervêm com elas na sociedade.
Ora o produto que resulta deste acto confere prestígio ao autor que, guiado pelo espírito criativo, inventivo, e imaginativo, e consciente das suas responsabilidades, o faz, em nossa opinião, com o propósito de contribuir para o desenvolvimento científico e cultural da sociedade na qual está inserido.
Todavia, além de ser um acto nobre, a produção de um livro científico é um trabalho penoso que requer a observância de um conjunto de princípios institucionalizados pela academia na qual se lecciona a cadeira de Metodologia de Investigação Científica (MIC), cujo propósito é o de tornar conhecidas as regras que devem ser respeitadas durante a realização da pesquisa científicaao nível da licenciatura, mestrado e doutoramento. Atingir este nível implica ter (i) domínio das regras elementares da MIC e (ii) honestidade intelectual. O mesmo se exige de quem tenha obtido apenas o grau de licenciado e/ou de mestre.

Um conselho sábio
No ensaio intitulado “A Dimensão Africana da Cultura Angolana”, Jorge Macedo (2010) refere que muitos trabalhos científicos baseiam-se na citação de um número incontável de obras por autores que pouco ou nada de “novo” trazem ao mundo científico.
A tendência constante para ler este e aquele autor, afirma o etnomusicólogo angolano, retira, a quem assim procede, a iniciativa que deveria ter em termos de criatividade e a imaginação que são alguns dos pressupostos para a produção de ideias novas. Embora a consulta de autores que se tenham notabilizado como “autoridades” numa área de conhecimento seja necessária, a verdade que a tentação para o “plágio” torna-se irresistível devido prostração do leitor diante da “fonte autorizada” (Collingwood 2001) que consulta frequentemente.
Ao que parece, a ideia segundo a qual as “autoridades científicas”devem apenas ser citadas decorre da submissão demonstrada diante das mesmas por alguns leitores. Os defensores desta tese vão mais longe ao considerarem inadmissível a crítica feita a determinados autores elevados a condição de‹‹inerrantes››, ou se quisermos, ‹‹perfeitos›› nas obras com as quais se imortalizaram (CALEY 2011).
Segundo Collingwood (2001), o historiador deve, além da consulta e da citação das obras dos seus colegas, trazer algo “novo” no trabalho que produz. Por sua vez, Jorge Macedo (2010) aconselhaaos estudiosos africanospara que reduzam ao “máximo as citações em seus trabalhos, por formas a alcançarem oitenta por cento de discurso científico original” depois deos submeterem a “crítica metódica”, ou seja, crítica histórica,que por sinal,é o instrumento de trabalho do historiador.
Infelizmente o conselho deste intelectualestá longe de ser acatado, ou se quisermos, normatizado pela academia onde a citação de “um sem número de passagens de obras lidas”, e por vezes decoradas/memorizados, continua a ser a norma e sinónimo de “erudição” para muitos (MACEDO 2010).
Pois, se é verdade que a familiarização com as obras de”autores consagrados”constitui uma das fases da pesquisa científica, não deixa de ser verdade que o processo em si concorre para a formação do espírito “citacionista” que, em alguns casos, preside a introdução, consciente ou inconsciente, de ideias alheias nos livros escritos por algumas das ‹‹grandes sumidades›› dos nossos tempos.
Tal facto suscita reflexão sobre a honestidade intelectual de quem prepotentemente se assume como tal.
A questão é tão grave que, em alguns países como o Brasil, o académico em cuja obra tenham sido encontradas ideias de autores não citados é sancionado com a demissão, ficando igualmente com a reputação maculada para o resto da vida!
Na verdade, a apropriação do trabalho alheio configura um acto criminoso (TAMO 2012),passível de um processo judicial conduzido pelas autoridades competentes que poderão aplicaruma pena sobre o transgressor que, estando já desempregado, terá que ser cumpri-la.
Em Angola, recentemente alguns responsáveis do Ministério da Ciência vieram a público a anunciar o trabalho que está sendo feito para que as situações descritas tenham efectivamente o seu devido tratamento, sendo de destacar aqui a criação de softwares por meio dos quais será possível identificar excertos de obras de autores cuja identidade foi ocultada em trabalhos de fim de curso, ou que tenham sido feitos individualmente ou em grupo por académicos.
Com a conclusão e a implantação deste projecto – esperamos que seja assim - haverá, de facto, maior controlo das obras produzidas em Angola que tem registado casos idênticos com o que será apresentado de seguida, e que já deveriam ter merecido a intervenção de quem de direito.

Acusação infundada?
Em 2009 a Texto Editores publicou a obra intitulada “História da África Negra. Síntese de História Políticae de Civilizações”da autoria de Boubacar Namory Keita.
O Autor, de nacionalidade maliana, é Professor Titular da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto (FCS/UAN) na qual leciona várias disciplinas, com realce para História da África e Introdução à Antropologia Cultural, sendo igualmente o chefe do departamento do curso de História.
Doutorado em Ciências Históricas pela Universidade Estatal de Leninegrado (URSS), o Professor Doutor Boubacar N. Keita colabora no Instituto Superior de Ciências da Educação de Luanda (ISCED),sendo igualmente autor de vários artigos científicos publicados em revistas nacionais e estrangeiras, e da “Contribuição Endógena para a Escrita da História da África Negra. Ensaio sobre a obra de Cheikh Anta Diop”, publicada em 2015 pela Mayamba Editora (2ª edição).
De 303 páginas, a “História da África Negra. Síntese de História Política e de Civilizações “,considerada por alguns estudantes como uma “obra-prima” cheia de “novidades”, é constituída por duas partes: a primeira foi dedicada à “Alguns problemas de metodologia e o continente das Origens do Homem à Antiguidade (Civilizações do Vale do Nilo)” (sic), ao passo que a segunda parte o autor consagra à “África Negra ‹‹Medieval›› do século III ao século XV (A África Ocidental e a África Austral)”. Tem no final alguns “Textos de Estudo” nos quais o expert disserta,com a autoridade e a sapiência que lhe caraterizam,sobre vários assuntos como “A África a sul do Sara e o Islão”, “Ils y Etaient Avant Christophe Colomb”, “Complemento ao Texto Ils y Etaient Avant Christophe Colomb”, “O Papel e o Lugar da Linhagem Feminina nas Sociedades Humanas” e a “A Era do Tráfico (Transatlântico) de Escravos Negros”.
A nossa atenção estará concentrada apenas na primeira parte desta obra, concretamente as páginas 26 e 27 nas quais o autor, entre outras coisas, apontou o seguinte: “doravante desligados da mãe – pátria invadida pelos estrangeiros, virados para si próprios dentro de um quadro geográfico, exigindo pouco esforço de adaptação e beneficiando de condições económicas favoráveis, os negros orientar-se iam para o desenvolvimento da sua organização social, política e moral, em vez de se dedicarem a formas de pesquisa científica e especulativa, que o meio físico não justificava, mas tornava impossível” (p. 26); […]”quando no século XV, os primeiros marinheiros e comerciantes portugueses, holandeses, ingleses, franceses, dinamarqueses, etc., começaram a estabelecer feitorias na Costa Ocidental da África, a organização política dos Estados africanos era igual, e às vezes superior, à dos seus respectivos Estados” (p.27).
Outros parágrafos poderiam ter sido transcritos, porém, por uma questão de objectividade e espaço, decidimos não transcrevê-los por formas a mantermos o foco da nossa abordagem.
Ora, ao lermos a obra de Cheikh Anta Diop, “A Origem Africana da Civilização. Mito ou Realidade” (versão portuguesa), verificamos que as frases supracitadas foram extraídas da sua obra (p.26) sem que ele tivesse sido citado como autor das mesmas.
O referido acto enquadra-se precisamente no conceito de “história de cola e tesoura” (COLLINGWOOD 2001) que é, nada mais do que,a “combinação” de excertos de vários autores e na edição de testemunhos orais complementares apresentados como “obra-prima”. Ademais, traz-nos a memória a advertência feita por Elikia M?Bokolo (2015) para quem os “discípulos” de Cheikh Anta Diop limitam-se apenas a “reproduzir as suas teses”, quando deveriam aprofundar a “ruptura epistemológica”sobre o passado de África iniciada por si no contexto da luta pela conquista da independência científica, intelectual e cultural do continente africano (ver igualmente a obra de Jorge Macedo, 2010).
Considerando os contornos que o facto em si apresenta, principalmente de ponto de vista jurídico, e acreditando que as autoridades estejam realmente a trabalhar para que se ponha cobro a situações como estas, levanta-se a questão se a lei que será criada terá ou não efeitos retroactivos.
Contudo, achamos ser indispensável que ao nível da academia (e igualmenteao nível das editoras, pois o objectivo não pode ser apenas comercial) se promova um debate sério, franco, aberto, elevado,e com exemplosenquadrados naproblemática do plágio para que se desencoraje a prática deste acto, porque do contrário, a apropriação da propriedade intelectual alheia continuará a ser um facto protagonizado por algumas sumidades, por sinal, autoras de”obras-primas”.
Nota: foram feitas várias tentativas para contactar o Professor Doutor Boubacar Namory Keita, porém, elas resultaram em fracasso. Todavia, e em respeito ao direito de resposta, convidamo-lo a pronunciar-se sobre a sua obra. Pois, acreditamos que terá argumentos para rebater toda crítica feita ao seu trabalho.