Grafitos na alma

Café da manhã com José Luís Mendonça

Constitui um ritual para muitos citadinos manterem-se sintonizados à LAC nas manhãs de terça-feira para ouvir o programa Café da Manhã, apresentado por José Rodrigues que ao longo dos anos vem entrevistando personalidades ligadas a política, academia e a cultura.

Constitui um ritual para muitos citadinos manterem-se sintonizados à LAC nas manhãs de terça-feira para ouvir o programa Café da Manhã, apresentado por José Rodrigues que ao longo dos anos vem entrevistando personalidades ligadas a política, academia e a cultura.
Na edição de 05 de Dezembro do ano em curso, o apresentador teve como convidado o escritor e jornalista José Luís Mendonça com o qual manteve uma conversa sobre o trabalho que o escritor vem desenvolvendo há mais de duas décadas, incluindo a obra recentemente publicada sob o título «Angola Me diz Ainda».
Segundo o autor, a obra é o prolongamento de Sagrada Esperança de Agostinho Neto, e, tal como esta, insere-se no conceito de poesia negra de expressão portuguesa que inclui a presença de termos saídos da língua Kimbundu.
Aleitura/pesquisa, a meditação e isolamento são alguns dos pressupostos para que o jovem se torne escritor. Mais do que isto, os elementos citados resumem o modo de vida do escritor que deve ser culto, possuidor de cultura geral para que possa abordar nas suas obras temas ligadas aos mais variados aspectos da vida.
E uma vez que o escritor está inserido numa realidade sociocultural, deverá igualmente conhecer a vida povo e tê-la como fonte da sua obra, pois, como se sabe, o escritor recria a realidade. Neste sentido, o poeta partilha a ideia segundo a qual o escritor deve inspirar-se na realidade.
Relativamente a crítica literária em Angola, actividade que consiste na apreciação de uma obra, o escritor considera o crítico literário como alguém que tenha conhecimento das obras literárias produzidas no seu País em todos os períodos da sua História, e acrescenta haver indivíduos que não tendo lido sequer a obra de Luandino Vieira autodenominam-se «críticos literários».
Com efeito, a iliteracia literária prevalecente em Angola deriva da perda do hábito da leitura no seio das famílias e da inexistência de bibliotecas nas escolas públicas e privadas. Daí a necessidade de se investir na construção e no apetrechamento de bibliotecas nas escolas em Angola por formas a melhorar a formação do cidadão.
Importa referir que muitos são os estudantes que desconhecem o grupo étnico no qual foram nascidos, os seus hábitos, usos e costumes e este terá sido o motivo pelo qual o escritor tenha sugerido que as novas gerações estejam imbuídas do espírito que animou o movimento «Vamos Descobrir Angola».
Tal como sucedeu no período anterior ao surgimento deste movimento, assiste-se hoje a um desinteresse dos jovens pelas «coisas da terra» e, se por um lado, poucos são os jovens que enveredam pelo jornalismo cultural, do outro lado, desconhecem-se os críticos literários formados pelas universidades angolanas.
«Por este motivo as Edições Novembro criou o Jornal Cultura», afirma o director da referida publicação na qual colaboram literatos e especialistas em Ciências Sociais e Humanas.
A Brigada Jovem de Literatura prestou um grande contributo para a Literatura Angola no período pós-colonial, concretamente na década de 80 durante a qual o escritor Carlos Ferreira, mais conhecido por Cassé, dinamizou o «Projecto Comum» cujo desenvolvimento foi interrompido devido a interferência do poder político sobre a actividade literária na época em que determinadas obras eram qualificadas de "subversivas" e os seus autores considerados "contra-revolucionários", outras vezes "anti-patriotas".
José Luís Mendonça é de opinião segundo a qual, o poeta envolvido com a política tende a abandonar os valores humanísticos pelos quais se bateu antes de envolver-se com esta. "Aconteceu em Angola e noutras partes do mundo", sustenta o autor de Chuva Novembrina que considera não existir compatibilidade entre a poesia e a política. A crença generalizada de que a última seria «a arte da mentira» será um dos factores que contribui para que alguns poetas prefiram manter-se distantes da política.
Importa referir que Nelson Mandela, político sul-africano, incluiu no seu testamento a sua empregada. Este gesto nobre é um dos poucos exemplos que sustenta a afirmação de que é possível haver poesia na política.
Recentemente o escritor José Eduardo Agualusa, entrevistado pelo jornalista da Rádio MFM, João de Almeida, reacendeu a polémica a volta de Agostinho Neto qualificando-o inicialmente de ter sido «um poeta medíocre» e, posteriormente, de «um político que usou a poesia para fazer política». Acrescentou ainda que considerar Neto de poeta-mor é uma forma de colocar de lado poetas que se destacaram como António Jacinto e outros.
Sobre este assunto, José Luís Mendonça cita o ensaísta angolano Mário António que dizia que a obra de Agostinho Neto enquadrava-se naquilo que viria a ser chamado de Poesia Negra de Expressão Portuguesa e afirma que José Eduardo Agualusa não terá lido completamente a obra de Neto e que o mesmo mudou de opinião depois de ter sido contactado por si.
Apesar do uso das línguas nacionais, a língua portuguesa é o instrumento de trabalho do escritor angolano e o seu domínio é extremamente importante para todo aquele que pretende afirmar-se como escritor.
Ora, na edição de 09 de Novembro do ano em curso, o Jornal de Angola publicou um artigo intitulado O Humbi-Humbi do Ensino Superior, no qual o escritor mostrou-se preocupado com a falta de domínio deste instrumento de trabalho artístico e intelectual pelos estudantes universitários que, entre outras debilidades, além de nunca terem lido sequer uma obra literária, mostram-se incapazes de identificar o verbo numa frase. «Por via desse fenómeno, a Literatura angolana está a perder o seu valor artístico», alerta o escritor que junta a outras personalidades que chamam atenção sobre a necessidade de reverter o quadro actual.
Recorde-se que na edição nº 427 o Novo Jornal publicou um artigo da nossa autoria cujo título foi extraído da nossa que mantivemos com uma licenciada em Gestão de Empresarial que, quando questionada se lia os livros de Pepetela, não se coibiu de colocar objecção da seguinte maneira: «Eu vou ler o livro de Pepetela?!».
Tendo em conta a pertinência do tema e o interesse suscitado, o artigo foi novamente publicado neste jornal, edição referente a 14 de Setembro de 2016, e pode ser lido pelo leitor que não teve oportunidade de lê-lo, bastando para o efeito que aceda a edição online do Jornal Cultura relativa a data em referência.
Parabenizamos o escritor José Luís Mendonça pelo trabalho feito em prol da Literatura Angola e auguramos votos de muito sucesso no exercício do ofício de escritor e de jornalista.