Barra do Kwanza

Passeando pelo Asa Branca

Sempre engordei um imenso prazer de passear por mercados organizados. Os de confusão não. Provocam-me arrepios. Nos tempos já idos, a partir da minha Rangú, andava por todos eles a pé, na alegria que a idade permitia. Só nos organizados, como disse.

Recordei-me do tempo em que as novelas baptizavam os mercados: Beato Salú, no Beô; Roque Santeiro, no Sambilá; Sinhá moça, na Sapú; Trapalhões, Ilha do Cabo, e outros que desconsigo lembrar.
Agora, os tempos são outros e desta vez, visitei o Asa Branca, no Zengá.
Cheguei no Asa Branca. Gostei do que vi; da organização, segurança, sorrisos e alegrias dos vendedores e compradores. Muita gente a vender. Muita gente a comprar. Do fato do pedreiro ao do advogado. Do matabicho do analfabeto, ao pequeno-almoço do senhor doutorado.
O parque de estacionamento, pavimentado à maneira, devidamente controlado por um jovem simpático, tinha estilo e ordenado. Os táxis, também eles a respeitar a ordem de chegada, sem bater na concorrência e na rapidez os moto-táxi, que ganhavam na agilidade do vai e vem regular.
Um outro agrado foi com o poder de criatividade das zungueiras e ambulantes no interior do mercado. O chamariz do seu negócio misturava cânticos ritmados com cenas da actualidade política. Vi um rapaz a vender um par de sapatilhas azuladas com alguns tons vermelhos: “kota, compra esses pisos. São próprios para fugir os papoites da operação resgate”, dizia o jovem num sotaque à caluanda.
Nos empurrões entre a multidão de gente preparada para esses embates, uns transeuntes com pressa e outros a congestionar a via, cruzei-me mais adiante com uma zungueira, que devia andar na casa dos 30 e muitos anos. Ágil como um camundongo, peruca cor de fogo, ela vendia soutiens. E fiquei pasmado quando ouvi o seu chamariz: “compra soutien João Lourenço; compra soutien João Lourenço”.
- Soutien João Lourenço porquê? – Quis eu saber, pegando nele a procura da etiqueta, que nada dizia sobre João Lourenço. E a resposta veio pronta: “porque aperta com eles” (os seios, deveria querer ela dizer). Sorri. Alguns que prestaram atenção também sorriram com satisfação.
Vi umas calças gangas bonitas, de um azul suave. E o vendedor avisou-me: “evita picada de marimbondo”.
Havia também o lápis da tia Bolinha: “se já tens marido e queres um amigo, usas o lápis e ficas com os dois, sem problema. Esse lápis não te ensina a deixar marido alheio em paz”. A senhora que cantava essa canção, bem desafinada da vida dela, parecia uma palestrante famosa na praça, pois ficava rodeada de muita gente. Não tive a oportunidade de ver os tais lápis milagreiros. Mas o negócio dela andava mesmo.
Mas não resisti quando ouvi de um jovem que vendia uns suspensórios: “Compra suspensório PGR”. Admirado e curioso, ainda encostei mais para perceber o porquê. E resposta não demorou: “Não é como aquele Sic (mostrou uns cintos de cabedal), que só prende cambomborinho. Esse suspensório é próprio para prender qualquer calça, até do Zé-cutivo”.
Admirado com a criatividade daquela malta, talvez sem a escolaridade obrigatória, pus-me a pensar mais uma vez nesse país dos diplomas.
País dos diplomas, porque o salário e a ascensão profissional é feita graças aos diplomas. Não ter um diploma significa não ter a chave para um bom emprego.
Nesse país vale pouco a competência, a experiência, a vontade, a vocação, o espírito de iniciativa ou de criatividade, as boas práticas. É mesmo o diploma de licenciatura, bacharelato, mestrado, doutorado que manda. Há até aqueles que têm diploma, mas nunca tiveram colega, professor ou orientador. Há aqueles que obtiveram um certificado e não conseguem obter uma segunda via do documento, porque a pessoa que passou tal documento mudou de quintal ou beco. Enfim, muitos forçam a barra porque fazer um curso superior é sinónimo de progressão socioprofissional.
Nada mais falso. Por exemplo, numa altura em que havia tão poucos quadros com o ensino superior, o jornalismo em Angola teve anos doirados. Ora, um país em reconstrução, com operações transparência, resgate e outras a decorrer, e o operário não é suficientemente valorizado se não fizer um curso superior?
Aqueles especialistas em marketing com quem cruzei no mercado do Asa Branca me puseram a pensar nisso tudo num rompante. Certamente, não fizeram um outro curso se não o da própria vida, o da concorrência, o da necessidade de despachar os seus produtos para adquirir outro e o negócio multiplicar-se. Não frequentaram outra universidade se não a do dia-a-dia no mercado, enfrentando vicissitudes para não pernoitar com a mercadoria, que pode indiciar perdas. Encontram financiamentos sem ajuda da banca oficial, negoceiam juros, novos investimentos e lucros.
Essa minha Angola precisa valorizar mais os cidadãos empreendedores, para também construirmos a ideia de que o sucesso na vida não passa necessariamente por obter um diploma de ensino superior.
Estava eu já a sair do mercado quando ouvi o sermão de um jovem muito magro, todo ele de preto:
- Escute a palavra do senhor. Se o marido te deixou, está aqui o versículo certo. Não se mata só mina irmã. É só quinhentos. O senhor tem a palavra para ti. Se vão te trocar pelo irrival, não se mata só, meu irmão. O senhor tem uma palavra para teu consolo. Se andas a lutar pra ser chefe, a oração certa está aqui. Se queres voltar a ser feliz, tenho a palavra do senhor que te mostra o caminho…
E continuava o jovem enfatado, com um lacinho borboleta azul florescente. Os sapatos estão já bastante empoeirados. Fiquei a contemplá-lo e ele percebeu. Lançou-me um sorriso meio seco, com algum desalento. Percebi logo que o negócio não estava a andar bem.
Saquei uns Kz. 500,00 e entreguei. Recebeu sem pestanejar e, depois de vasculhar na caixa que trazia, sacou e entregou-me um envelope branco. – “Irmão, és o primeiro cliente. Me dá sorte, ia?”.
Não esperou resposta e foi, continuando o seu sermão. Olhei então para o envelope e estava escrito no lado destino ao destinatário: Efésios 1:7; 1 Pedro 1: 18, 19.
Bom leigo como sou, não entendi como traduzir aquilo e prometi que, assim que chegasse a casa, iria ouvir o que dizia a palavra, proferida por algum pastor que gravou a sua voz numa pen-drive, levando alguma oração direcionada ao problema de cada ovelha. Achei o máximo aquela ideia.