Artes

"Vis à Vis" entre Angola Espanha

Criar uma ponte cultural com a música

Com o objectivo de aproximar mais a cultura angolana da espanhola, a Casa África realiza este ano, pela primeira vez, o projecto “Vis-à-Vis” em Luanda. O objectivo é mostrar o melhor da música nacional nos palcos internacionais e dar mais oportunidade aos artistas.
Numa visita efectuada ao país, o director-geral da casa África, Luis Padrón López, que manteve contacto com os Ministérios da Cultura e Turismo, destacou a importância do projecto na criação de uma plataforma mais activa e forte entre os dois países.
A ideia, disse, é criar um festival diferente em relação ao realizado nos outros países africanos, onde a diversidade da música angolana, assim como as multifacetas dos seus criadores possam ser melhor exploradas.
A diversidade de ritmos e géneros musicais do país foi uma das razões que levou a Casa África a olhar Angola como uma das potenciais fontes de artistas africanos para a próxima edição dos festivais de Verão da Espanha.
Para a selecção dos artistas, a Casa África vai criar um site, no qual os promotores e agentes dos músicos angolanos possam apresentar as suas propostas. “Não queremos escolher os mais famosos, mas sim aqueles cujas músicas têm grande oportunidade de se tornarem uma referência nos festivais de Verão, um dos maiores encontros da música na Europa, por juntar, anualmente, milhões de pessoas”, disse.
Os músicos são escolhidos em várias fases. Na primeira, a organização do concurso pretende receber, pelo menos, 200 temas de criadores nacionais, dos quais, depois de uma pré-selecção, serão apurados 12. Depois os 12 temas são apresentados ao público num espectáculo, de três dias, em Luanda. No final, os dois melhores músicos actuam, com tudo pago, nos festivais de Verão da Europa.
A selecção dos artistas na primeira fase é feita por produtores nacionais e espanhóis. Porém, na última, são apenas os técnicos europeus que devem escolher quais os temas que melhor vão se adaptar ao público do festival de Verão.
A entrega dos temas pode ser feita em diferentes formatos digitais. Luis Padrón López adiantou ainda que até Dezembro a Casa África vai colocar o site para a recepção dos trabalhos online. O festival “Vis-à-Vis”, acrescentou, pode acontecer entre Fevereiro e Março, em Luanda, em datas ainda a serem acertadas, com base nas dos festivais de Verão.
O tempo serve também para os músicos angolanos começarem a se preparar, de forma a apresentarem propostas capazes de conquistar espaço num mercado diferente e bastante disputado, no qual participam, todos os anos, 20 a 40 mil pessoas.
Para Luis Padrón López, apesar das músicas comerciais serem, geralmente, as de maior destaque, a organização do festival pretende também receber temas capazes de mostrar um pouco da tradição e cultura angolana. “São canções diferentes que espelham um pouco o que é a tradição de um povo e a essência do festival. São fundamentais para divulgar a realidade de Angola e como foi construída a sua identidade ao longo dos anos.”

Aberturas

“Vis-à-Vis” é uma janela aberta para explorar o mundo, a começar pela Espanha e depois a Europa. O músico apenas precisa de mostrar a sua criatividade e ver esta reconhecida pelos produtores angolanos e espanhóis. O significado da realização do festival no país não pode ser medido ainda, só depois de o vermos materializado e os dois músicos angolanos vencerem além-fronteiras.
Porém, ganhos como a aprendizagem, o aumento da experiência e o conhecimento sobre a música de outros países, não podem ser medidos com o êxito dos artistas angolanos no estrangeiro. Eles começam com a realização do festival, porque o intercâmbio com os técnicos espanhóis, em si, representa um ganho para todos os participantes.
Além disso, os músicos têm ainda a oportunidade de divulgarem os seus trabalhos e mesmo que não venham a ser seleccionados para o festival podem, com o seu talento, chamar atenção de um dos produtores espanhóis convidados e obterem um contracto.
Depois de ter sido realizado em Cabo-Verde (2011), Etiópia (2012), África do Sul (2013), Tanzânia (2014), Senegal e Costa do Marfim (2015), e dado a oportunidade dos músicos destes países tentarem vencer na Europa, agora é a vez dos angolanos darem o melhor do semba, kuduro e kizomba ao Mundo.
O facto de vários produtores espanhóis virem a Angola na primeira fase de selecção dos músicos também abre as portas para a criação de novos acordos de trabalho e de parcerias entre os artistas nacionais e estes.
A televisão pública espanhola, que é uma das parceiras do festival, também vai ajudar a divulgar os músicos angolanos, assim como o turismo nacional, através de filmagens, a serem feitas até o final do ano, de alguns lugares e paisagens turísticas de destaque.
Embora a música seja a principal referência do projecto, o “Vis-à-Vis” não se limita só a esta arte, ela inclui também outras áreas, como as artes plásticas. O director-geral da Casa África informou que manteve contacto com o Ministério da Cultura, no intuito de trabalharem, no futuro, noutras áreas, assim como num projecto conjunto de formação dos artistas.
Além das artes, a Casa África também quer apostar no turismo e apresentar propostas diferentes nesta área, com base na experiência das Ilhas Canárias, país onde têm a sua sede. “São os primeiros contactos de um longo caminho”, reforçou Luis Padrón López, que manteve também contacto com o Ministério da Hotelaria e Turismo.

Casa África

O director-geral da Casa África, Luis Padrón López, é licenciado em Direito, pela Universidade de La Laguna (ULL). Em 2002 e até a sua nomeação como director da Casa África trabalhou como director da Câmara Oficial do Comércio, Indústria e Navegação de Las Palmas, nas Ilhas Canárias.
Neste cargo adquiriu ampla experiência no comércio internacional, principalmente com os países da África Ocidental. Actualmente é também conselheiro da Zona Especial das Ilhas Canárias e da Autoridade Portuário de Las Palmas.
A Casa África foi criada para impulsionar a actividade no campo da diplomacia pública e económica, apoiando a internacionalização das empresas espanholas e reforçar o papel das Ilhas Canárias como um centro de logística, serviços, negócios e treinamento para a África Ocidental.
A instituição é adscrita ao Ministério Espanhol das Relações Exteriores e tem como vocação contribuir para a internacionalização das artes e das culturas africanas, mas, sobretudo, promover a imagem de Espanha em África e das culturas africanas em Espanha.
O projecto Vis a Vis é um programa/concurso de apoio à internacionalização da música africana, cujo principal objectivo é a criação de plataformas, descoberta de novos músicos e novas rotas de comunicação entre artistas africanos e agentes culturais espanhóis, permitindo que os vencedores do mesmo possam aceder aos festivais musicais de verão que se realizam em Espanha e porventura, em toda a Europa.

ADRIANO DE MELO