Artes

António Ole arquitectura e interiores da alma angolana

"Luanda, Los Angeles, Lisboa" exposição retrospectiva no Museu Gulbenkian. Os factos indicam que não estamos mais diante de um actor local. Nos frutos de 30 anos do Horizonte Njinga Mbande, David Caracol é sem sombra de dúvida o brilho maior, pela carreira repleta de presenças em festivais internacionais, e pelos papéis que desempenha na dramaturgia nacional

António Ole é artesão, ferreiro, pedreiro, pintor e carpinteiro de artes mágicas. São essas as profissões em que Ole mais se transmigra. Para além da profissão de filósofo, é claro. Pode alguém, que não é filósofo, divagar dentro de uma superfície branca e ali reinventar, não apenas o Mundo, mas a grande interrogação ontológica relativa à negação da própria negação?
Daí, Ole erguer paredes com artefactos utilitários, uma colher de pedreiro que acumula sonhos da argamassa ainda mole antes de ser casa, uma superfície branca cheia da verticalidade de ser Pai, o chapéu branco, a cadeira branca, o suave sono do passado ainda pulsátil no volume imaterial da
instalação, na sua absorção (ir)racional.
Com essas competências lúdico-estéticas, Ole (re)constrói um edifício ultrapictórico, que desconcentra em cada ângulo a arquitectura e os interiores da Alma Angolana, essa estrutura etnocêntrica guardada ao milímetro em cada recomposição intercultural da História. A caneca e o prato de esmalte ou de alumínio, a ferrugem de um candeeiro metálico e o maço de documentos atados à memória de quem se (in)geriu ou (di)geriu e a margem da zona limite com movimento perpétuo de águas e corvos embalsamados para navegar até ao Outro Mundo e levar Deste Mundo sólidas notícias em
forma de tijolos, os rostos de um povo e suas máscaras, os deuses que arranham a alma de António Ole com as mil cores da Solidão do Criador
E o seu olhar é como o Olhar da Quimera que não existe, sempre a vislumbrar Utopias.
E as coisas que não existem materializam-se na tela em visões surrealistas que traduzem a angústia de existir e a doce paixão de sentir: como um corte nas tintas da alma a esvair-se em 7 Artes, até acumular no Cinema a poeira de outras almas.
Pintar não basta. É de toda a utilidade pôr em relevo a Angústia, pormenorizar o vácuo entre o sonho e a (ir)realidade.